Construção

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“Todos somos construções, o homem é uma construção”, eu me lembrava.

Enquanto caminhava, passei por uma ponte. Parei e olhei o ambiente ao redor dela. Embaixo havia os carros que corriam nos mares de asfalto, cruzavam o oceano daquela grande cidade. Acima deles, os grandes faróis, arranha-céus que tentavam encontrar formas de beijar as nuvens. Alguns ainda em fase de construção, com o esqueleto a mostra, os grandes ossos de ferro brilhando perto do Sol. Outros completos, só faltavam a massa humana correr dentro de suas veias férricas.

“Todos somos construções, o homem é uma construção”, voltava-me aquela frase na memória. A frase dita pelo meu professor de ética da faculdade ressoava dentro da minha cabeça, cruzava os corredores da memória e batia feliz em tudo o que encontrava em seu caminho.

Coloquei um dos meus pés sobre o guarda-corpo da ponte, continuei a pensar: “Se fossemos construir um homem, a base para ele seria a família”. Os olhos começaram a se despir das suas lágrimas que corriam para as bochechas. Um pequeno filme passa pelos meus olhos.

Então me lembro, eu deitado no quarto em posição fetal, enquanto ouvia no outro cômodo da casa, gritos, xingamentos, palavras jamais ditas. Duas vozes gritavam, dois monstros brigando, se devorando pedaço por pedaço.

Na grande confusão, uma das vozes fica mais fraca. Suplica por misericórdia, em tons agudos, pede para parar. Mas não adianta, seu agressor bate, bate, até que desaparece, e sua voz se mistura ao saudoso silêncio. A memória termina.

Sou jogado para outro momento, o velório da minha mãe. Seu corpo sendo sacrificado para dentro da boca aberta de terra. Vozes soltas que ecoavam em meus ouvidos. Escondidas entre os construtos adultos, uivavam palavras que diziam:

Pobre coitado — disse um dos tios, com histórico de agressão a esposa.

O pai está sendo procurado, soube que assassinou a mãe — disse a tia, com um filho preso por homicídio.

Parece que a mãe traiu o pai, ele descobriu e acabou com ela — comentou Tia Leila, uma das tias que minha mãe chamava de fofoqueira.

Aquela vadia mereceu, se eu estivesse no lugar teria feito a mesma coisa — revelou Pedro, meu primo mais velho, que meus pais falavam ser violento com a namorada.

O caixão descia e eu chorava em silêncio.

Meus alicerces estavam podres, faltavam peças e as que foram usadas enferrujam devido às tempestades que eu era bombardeado e os ventos frios que corriam entre os outros prédios construídos de carne e osso.

Coloquei meu outro pé em cima do guarda corpo, senti-me como um pequeno prédio em ascensão, em sua tentativa de tocar o paraíso. Então, continuei o pensamento: “a família, e depois disso, com o que aprendeu, o indivíduo pode construir a si mesmo, com as próprias ferramentas. Até se tornar um grande prédio e ganhar os olhos de todos as construções menores.”

Errado, pensei. Um prédio com uma construção fraca, mal terminado, cujos recursos foram desviados para outros corpos. Não iria crescer, teria falhado. Eu fui uma construção falhada. Perdi minha base, o que sobrou, deteriorou-se.

Tentei ir me construindo, peça por peça, viga por viga. Em um amontoado de metal e sentimentos, fui me erguendo torto, até quando senti, meu solo se afundar. Tudo mal encaixado e sem vistoria de nenhum adulto profissional, nada adiantou. Era o momento do meu grande show de destaque, a queda.

Olhei para o exemplo que tive em minha frente e senti a aprovação dos prédios ao meu redor para tentar minha ação final. Repeti pela última vez:

“Todos somos construções, o homem é uma construção”.

Meu corpo se inclinou em direção ao asfalto. Cada pedaço de metal caia se desgrudando de mim, a construção estava se destruindo, voltando cada pequena parte a grande boca de mãe terra, de onde vieram e nunca deveriam ter saído.

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